Uma nova pesquisa examinou a relação entre a atividade física e marcadores biológicos associados à chance de desenvolver um tumor mamário. Com isso, torna-se possível apontar possíveis caminhos para a redução do risco de câncer de mama entre jovens.
Os resultados reforçam algo que a medicina vem debatendo há décadas: os hábitos construídos na juventude deixam marcas profundas na saúde ao longo da vida e devem sempre ser levados em conta na promoção de uma vida mais longa e satisfatória.
O que se sabe sobre a relação entre exercícios físicos e risco de câncer de mama?
Não é de hoje que a literatura sobre o tema acumula evidências de que mulheres ativas têm menor probabilidade de desenvolver câncer de mama. Os mecanismos propostos para explicar essa proteção são variados e envolvem:
- regulação dos níveis de estrogênio e insulina;
- controle do peso corporal;
- redução da inflamação sistêmica e modulação do estresse oxidativo, processos geralmente acelerados pelo comportamento sedentário e pelo acúmulo de gordura corporal.
Nesse sentido, um estudo publicado no British Journal of Sports Medicine em 2022, a partir de dados de quase 131 mil mulheres, permitiu que os autores concluíssem que maior atividade física global, maior prática de atividade vigorosa e menor tempo sedentário têm relação direta e relevante com a redução do risco de câncer de mama.
Já outro estudo, desta vez publicado em 2025 no Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, acompanhou mais de 50 mil mulheres com ao menos uma irmã diagnosticada com câncer de mama.
Os resultados indicaram que passar dez ou mais horas por dia sentada estava associado a maior incidência da doença. O dado confirma, portanto, que reduzir o tempo sedentário é uma forma ativa de diminuir a chance de desenvolvê-la.
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De que forma atividades físicas alteram o risco de câncer de mama entre jovens?
Considerando todos os estudos citados sobre o assunto, o que ainda não estava estabelecido era se os efeitos protetores dos exercícios já começavam a se manifestar durante a adolescência. Afinal, é nessa fase que o tecido mamário passa por um processo intenso de desenvolvimento e remodelação, tornando-o potencialmente mais sensível a alguns fatores.
A pesquisa publicada em janeiro de 2026 na revistaBreast Cancer Research investigou justamente essa questão. O estudo acompanhou 191 adolescentes negras e hispânicas (grupos historicamente negligenciados e fortemente afetados por doenças nas mamas) entre 11 e 20 anos.
Mesmo entre as participantes do estudo, o nível de atividade física acumulada não era satisfatório, refletindo um padrão preocupante observado em várias partes do mundo. Os dados do artigo mostram que:
- 51% das meninas não haviam realizado nenhuma atividade recreativa na semana anterior;
- 73% não participaram de qualquer atividade física organizada.
A partir disso, a composição do tecido mamário foi analisada, além de marcadores urinários e sanguíneos para avaliar estresse oxidativo e inflamação.
No fim, as adolescentes que praticaram pelo menos duas horas de atividade física organizada por semana apresentaram menor teor de água no tecido mamário em comparação àquelas sem nenhuma atividade. Isso sugere uma menor densidade mamária, fator associado a menor risco de câncer de mama.
Além disso, as meninas com mais horas de prática demonstraram menores concentrações urinárias de um marcador estabelecido de estresse oxidativo. Esse resultado indica um menor desequilíbrio entre radicais livres e a capacidade do organismo de neutralizá-los, um fator associado a danos ao DNA celular e ao surgimento de tumores.
Um ponto especialmente importante dos achados é que essa associação se manteve mesmo após o ajuste para o percentual de gordura corporal. Ou seja, os benefícios da atividade física sobre o tecido mamário não se explicam apenas pelo controle do peso: há mecanismos biológicos adicionais em jogo.
Por outro lado, a atividade física não demonstrou associação com os marcadores inflamatórios avaliados, o que sugere que os caminhos pelos quais o exercício influencia o risco nessa faixa etária são mais específicos do que se imaginava.
Por que esses resultados importam (para médicos e pacientes)?
Do ponto de vista clínico, o estudo contribui para a discussão sobre prevenção primária do câncer de mama. Se os efeitos protetores da atividade física sobre o tecido mamário já se manifestam na adolescência, isso indica que a janela de oportunidade para a prevenção começa muito antes do que se costuma considerar nas consultas de rotina.
Para mastologistas e oncologistas, esse dado reforça a importância de incluir orientações sobre atividade física nas consultas com pacientes jovens. Elas não devem figurar apenas como uma recomendação genérica de saúde, mas como estratégia concreta de redução do risco oncológico. A incidência de câncer de mama vem crescendo entre mulheres mais jovens, o que torna essa conversa ainda mais urgente.
Para as pacientes e suas famílias, a mensagem é encorajadora: pequenas mudanças nos hábitos durante a adolescência podem ter repercussões positivas duradouras. Não se trata de uma rotina extenuante. Os próprios achados indicam que duas horas semanais já são suficientes para produzir diferenças em biomarcadores de risco.
Enquanto isso, a Organização Mundial de Saúde recomenda que crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos reduzam ao máximo o tempo sedentário e acumulem pelo menos 60 minutos diários de atividades físicas.
Os pesquisadores ressaltam que outros estudos são necessários para confirmar se as alterações nos biomarcadores se traduzem, de fato, em menor incidência de câncer de mama entre jovens no longo prazo. Ainda assim, achados como esse reforçam recomendações práticas e apontam novas direções sobre prevenção em diferentes fases da vida.
Confira agora uma investigação que busca compreender como o excesso de peso afeta as células de um câncer de mama.





