Concluir o tratamento oncológico é algo que merece celebração. Ainda assim, para muitas mulheres, esse estágio não representa o encerramento de todos os desafios. Dessa forma, estudo apresentado no Simpósio de Câncer de Mama de San Antonio 2025 trouxe evidências promissoras sobre o papel da acupuntura em pacientes com câncer de mama.
Na prática, a técnica pode ser relevante para diminuir lapsos de memória, dificuldade de concentração e lentidão para processar informações. Essas queixas são capazes de comprometer significativamente a qualidade de vida mesmo depois que o tumor é eliminado.
Qual a relação entre câncer de mama e dificuldades cognitivas?
Em resumo, o comprometimento cognitivo relacionado ao câncer é definido como o declínio das funções cognitivas associado à própria doença ou aos seus tratamentos.
Uma revisão guarda-chuva publicada em The Oncologist em 2024 consolidou evidências de 18 revisões sistemáticas e concluiu que a quimioterapia e a terapia endócrina estão consistentemente associadas a prejuízos em memória, atenção, concentração, velocidade de processamento e funções executivas (como lembrar de alguma instrução ou fazer várias atividades ao mesmo tempo).
Esses déficits podem surgir durante o tratamento ou mesmo depois que ele termina, e em alguns casos persistem por anos após seu encerramento.
Regimes quimioterápicos à base de taxanos e o uso de tamoxifeno estão especialmente associados a esse quadro. Além disso, fatores como distúrbios do sono, fadiga, ansiedade, depressão e processos inflamatórios sistêmicos parecem amplificar e manter as dificuldades cognitivas.
Um dado que merece atenção é a diferença entre a cognição percebida e a cognição objetiva. As queixas subjetivas ( “estou me esquecendo de tudo”, “não consigo me concentrar”) frequentemente não se correlacionam diretamente com os resultados de testes padronizados. Isso, claro, não significa que tais problemas sejam menos reais ou menos importantes.
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Quais podem ser os benefícios da acupuntura para pacientes com câncer de mama?
O estudo clínico ENHANCE foi desenhado exatamente para responder a essa pergunta com mais rigor. Para isso, o ensaio comparou três estratégias em 260 mulheres com câncer de mama nos estágios 0 a III que já haviam encerrado o tratamento e relataram dificuldades cognitivas moderadas ou intensas.
As participantes foram distribuídas aleatoriamente em três grupos, em que cada uma recebeu:
- acupuntura real;
- acupuntura simulada (em que as agulhas não penetram a pele);
- cuidado habitual.
A equipe realizou as sessões semanalmente durante 10 semanas e avaliou a cognição no início, no término do prazo inicial e após 26 semanas. Os resultados foram claros em dois aspectos:
- Melhora na percepção das dificuldades cognitivas: tanto a acupuntura real quanto a simulada levaram a melhorias sustentadas em comparação ao cuidado habitual. Esse benefício se manteve até a avaliação de 26 semanas em ambos os grupos de acupuntura.
- Melhora objetiva da função cognitiva: apenas a acupuntura real produziu melhora estatisticamente significativa nos testes objetivos de memória, superando a acupuntura simulada.
Essa distinção é relevante: ela sugere que o benefício percebido pelas pacientes pode estar relacionado ao próprio processo terapêutico, como o ambiente de cuidado, o relaxamento, a atenção recebida, enquanto a melhora objetiva parece decorrer de mecanismos específicos da acupuntura.
O estudo também confirmou a íntima ligação entre qualidade do sono e desempenho cognitivo: insônia e fragmentação do sono se associaram a piores resultados nos testes neuropsicológicos.
Em termos de segurança, os efeitos adversos foram mínimos e restritos ao grupo de acupuntura real, com hematomas leves relatados por apenas 3,1% das participantes. Ou seja, a equipe responsável pela pesquisa constatou um perfil bastante favorável para uma intervenção terapêutica.
O que médicos e pacientes devem considerar antes dessa prática de medicina integrativa?
O interesse crescente em práticas integrativas como a acupuntura é compreensível: muitas sobreviventes buscam alternativas para sintomas que os tratamentos convencionais ainda não abordam de forma satisfatória. No entanto, algumas considerações são fundamentais antes de qualquer decisão.
- A conversa com o oncologista é indispensável: embora uma opção integrativa possa ser valiosa, os profissionais devem sempre avaliá-la dentro do contexto clínico individual.
- O profissional deve ter formação específica: a acupuntura é uma prática regulamentada no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina e por conselhos de outras categorias de saúde. Buscar um profissional com capacitação reconhecida é essencial para garantir segurança e eficácia.
- As expectativas devem ser realistas: seus resultados, embora promissores, precisam ser confirmados por estudos maiores, que considerem outras variáveis.
- A acupuntura não substitui tratamentos convencionais: portanto, não se deve dispensar acompanhamento neuropsicológico, psicológico ou farmacológico quando indicados.
Por fim, junto do eventual papel relevante da acupuntura em pacientes com câncer de mama, é importante lembrar que as dificuldades cognitivas relatadas pelas sobreviventes são reais e merecem ser levadas a sério. Assim, intervenções integrativas bem conduzidas podem ter um papel genuíno nesse processo.
Aproveite e confira agora como exercícios para pacientes com câncer de mama podem melhorar a qualidade de vida e reduzir custos com saúde.





