Sentir cansaço durante o tratamento de um câncer é algo que muitos pacientes já esperam. Mas e antes de começar? Além do prejuízo à qualidade de vida, um estudo indicou que a fadiga no câncer de mama presente antes do início do tratamento sistêmico pode ser um indicador crítico de como o organismo vai responder à terapia.
O artigo publicado em dezembro de 2025 no JAMA Oncology demonstrou que pacientes com fadiga elevada no início apresentaram o dobro do risco de efeitos tóxicos graves. Além disso, foram registradas quase cinco vezes mais chances de complicações fatais em comparação com quem tinha fadiga mínima ou ausente.
Neste conteúdo, você vai conferir como esse achado tem o potencial de alterar a forma como médicos e pacientes devem encarar esse sintoma desde o diagnóstico.
Como o estudo sobre fadiga e toxicidade no câncer de mama foi feito?
A análise reuniu dados de 17 ensaios clínicos envolvendo pacientes oncológicos submetidos a diferentes tipos de terapia sistêmica, incluindo quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. Ao todo, foram analisadas informações de 7.086 pacientes.
Nesse grupo havia diagnósticos variados, incluindo cânceres de próstata, pulmão, colorretal, linfoma, mama, melanoma, ovário e pâncreas.
Na prática, o objetivo era entender se a fadiga relatada pelos próprios pacientes, antes de qualquer tratamento, tinha relação com os efeitos adversos que surgiriam ao longo da jornada terapêutica.
A fadiga foi avaliada por meio de instrumentos de autorrelato padronizados. Em outras palavras, o paciente descrevia o nível de cansaço que sentia antes de iniciar qualquer medicação.
Esse tipo de avaliação é chamado de PRO (Patient-Reported Outcome). A ferramenta é cada vez mais valorizada na oncologia moderna por identificar aspectos que os exames laboratoriais não conseguem detectar.
Tal instrumento leva em conta que o cansaço físico real de um paciente muitas vezes não aparece nos exames de sangue ou de imagem. Isso acontece porque a fadiga é uma experiência subjetiva e multidimensional, que envolve corpo, mente e emocional. Por isso, ela só pode ser capturada pela própria pessoa que a vive.
O que as conclusões apresentadas indicam?
Antes de iniciar qualquer terapia, todos os participantes foram avaliados quanto ao nível de fadiga por meio de escalas validadas, que posteriormente foram padronizadas para garantir consistência na comparação entre os estudos.
Logo de início, 39,1% dos pacientes relataram ao menos algum grau de fadiga já no momento basal, ou seja, antes de qualquer intervenção terapêutica.
Além disso, os eventos adversos analisados foram classificados conforme a ocorrência de eventos adversos de grau 3 ou superior (graves), grau 4 ou superior (que colocam a vida em risco) e grau 5 (fatais). Com base nesses dados, os autores do estudo destacaram que:
- pacientes com fadiga significativa antes do tratamento tiveram o dobro do risco de toxicidade grave;
- o risco de complicações fatais foi quase cinco vezes maior nesse grupo;
- a associação se manteve mesmo após ajustes para fatores como idade, tipo de câncer e performance clínica.
Ou seja, a fadiga prévia não era apenas um reflexo de um quadro mais avançado e sim um fator relevante para antecipar os efeitos colaterais, muitos deles capazes de interromper o tratamento ou até mesmo colocar a vida da paciente em risco durante a terapia.
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Por que a fadiga deve ser um fator sempre relevante no acompanhamento oncológico?
Ainda que novos estudos precisem ser conduzidos para ampliar a certeza em torno dos resultados, o estudo publicado no JAMA Oncology desafia a visão de que a fadiga seria um sintoma a ser suportado pela paciente, ao demonstrar que o que a paciente sente antes do tratamento importa tanto quanto o que sente durante.
Portanto, esse achado pode influenciar diretamente as decisões clínicas, como a escolha do esquema quimioterápico, o escalonamento das doses ou a inclusão de suporte especializado desde o início. Ignorar tal marcador é perder uma oportunidade real de personalizar e tornar o tratamento mais seguro.
Ainda assim, muitas pacientes têm dificuldade de falar sobre cansaço porque acreditam que ele é inevitável ou que não há nada a fazer. Mas a abordagem médica moderna reconhece a fadiga no câncer de mama como um sintoma tratável e rastreável, e não como um efeito colateral aceito passivamente. Ao consultar o médico antes do início do tratamento, vale relatar:
- há quanto tempo você sente esse cansaço;
- se ele interfere nas atividades do dia a dia;
- se piora em determinados horários ou situações;
- se está acompanhado de outros sintomas, como falta de ar, tontura ou alterações no sono.
Para mastologistas e oncologistas, o recado prático é relevante: avaliar formalmente a fadiga no momento do diagnóstico e antes do início do tratamento pode fazer parte de uma triagem mais ampla de vulnerabilidade clínica.
Pacientes que chegam à terapia já com fadiga significativa relacionada ao câncer de mama podem se beneficiar de um monitoramento mais próximo durante o tratamento, ou de suporte complementar capaz de reduzir o risco de complicações.
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