Um amplo estudo publicado em março de 2026 no Journal of the National Comprehensive Cancer Network trouxe novos dados sobre a possível relação entre vitamina D e as taxas de sobrevida do câncer de mama (ou seja, o tempo em que a paciente vive depois do diagnóstico).
Foram acompanhadas quase 4 mil mulheres por mais de uma década. Os pesquisadores observaram melhores desfechos entre aquelas com níveis maiores dessa vitamina no período próximo ao diagnóstico. Diante disso, vale discutir até que ponto essa associação pode influenciar o cuidado oncológico das pacientes.
O que já se sabe sobre a relação entre vitamina D e câncer de mama?
Falar em vitamina D, cuja principal fonte é o próprio organismo, que a produz mediante exposição da pele à luz solar, costuma trazer à mente a saúde dos ossos. Entretanto, sua atuação é mais ampla e envolve também funções musculares, imunológicas e metabólicas.
Adicionalmente, há anos os pesquisadores procuram entender se os níveis dessa vitamina no sangue têm relação com o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
No caso do câncer de mama, estudos observacionais já identificaram associações entre baixos níveis de vitamina D e maior risco para a doença. Entre mulheres já diagnosticadas, algumas pesquisas também encontraram uma possível conexão entre a deficiência do nutriente e piores desfechos.
Um estudo de 2023, conduzido com mais de 430 mil mulheres, mostrou que a deficiência de vitamina D estava associada a um risco 45% maior de desenvolver câncer de mama entre mulheres na pós-menopausa. Entre as mulheres na pré-menopausa, o risco era 18% maior.
Já quando se fala em prognóstico, um outro levantamento de 2026 com mais de 675 mil pessoas diagnosticadas com câncer de mama identificou que níveis reduzidos estavam ligados a um risco maior de metástase e de morte.
Esse achado reforça resultados apresentados em 2017, que já apontavam que patamares mais altos da vitamina estavam associados a uma melhor sobrevida geral.
Tudo isso, porém, não significa que a falta de vitamina D seja necessariamente causa direta do câncer ou de pior evolução da doença.
Os níveis desse nutriente podem estar relacionados a outras características da paciente, como idade, alimentação e demais condições de saúde. Novos estudos ajudam a compreender, cada vez melhor, a possível relação entre vitamina D e sobrevida do câncer de mama.
Vitamina D e sobrevida do câncer de mama: o que o novo estudo aponta
Foi com essa proposta que os pesquisadores responsáveis pelo novo achado analisaram dados de 3.995 mulheres diagnosticadas com câncer de mama invasivo.
As amostras utilizadas para medir os níveis de vitamina D foram coletadas cerca de 69 dias após o diagnóstico, na mediana. Para a análise, foi considerada a concentração da 25-hidroxivitamina D, principal marcador utilizado para avaliar o estado da vitamina D no organismo. Em seguida, as participantes foram divididas em três grupos:
- deficiência: níveis inferiores a 20 ng/mL;
- insuficiência: entre 20 e 29,9 ng/mL;
- suficiência: valores iguais ou superiores a 30 ng/mL.
Após um acompanhamento mediano de 12,2 anos, os pesquisadores compararam as pacientes de acordo com os níveis de vitamina D observados no início do estudo. Com esses dados em mãos, foi possível constatar que as pacientes com níveis suficientes de vitamina D apresentaram, em comparação às pacientes com deficiência:
- 24% menos risco de morte por qualquer causa;
- 25% menos risco de desenvolver um segundo câncer primário;
- 18% menos risco de recidiva ou progressão da doença.
Os pesquisadores observaram associações ainda mais fortes entre as pacientes com doença em estágio II ou mais avançado.
Além disso, níveis suficientes de vitamina D também estavam associados a um menor risco de outros fatores cardiovasculares e metabólicos, como diabetes e dislipidemia (colesterol alto). Porém, não houve associação estatisticamente significativa entre vitamina D e morte por doença cardiovascular.
O que isso representa na prática para médicos e pacientes?
Diante desses achados, os próprios autores sugerem que o rastreio de rotina da deficiência de vitamina D em mulheres com câncer de mama pode ser recomendável, com suplementação posterior quando clinicamente indicada.
Entretanto, cabe destacar que, por se tratar de um estudo observacional prospectivo, os resultados mostram associação, e não necessariamente causa e efeito comprovados por ensaio clínico randomizado. Esses estudos são capazes de apresentar conclusões mais robustas.
Em geral, medir a vitamina D é um procedimento simples, acessível e de baixo risco, feito por meio de exame de sangue. A partir do resultado, o mastologista ou o oncologista pode orientar sobre exposição solar segura, alimentação e, se necessário, suplementação individualizada.
Vale reforçar que a automedicação é sempre contraindicada. A necessidade e a dose ideal de suplementação variam de pessoa para pessoa, e o excesso de vitamina D também traz riscos à saúde.
Em resumo, qualquer afirmação sobre a relação entre vitamina D e a sobrevida do câncer de mama não substitui o tratamento oncológico. Todavia, garantir níveis adequados pode ser um aliado relativamente simples no cuidado integral da paciente com câncer de mama, sempre conforme orientação do mastologista de confiança.
Se você quer saber mais sobre o tema, não vá embora sem conferir algumas das principais recomendações para a alimentação durante o tratamento oncológico.





