Tudo que colocamos no prato pode influenciar a nossa saúde e a chance de desenvolver uma série de doenças. Nesse contexto, muito da atenção de médicos e pacientes se volta para a relação entre alimentos ultraprocessados e câncer.
Várias evidências científicas apontam como um maior consumo de alimentos ultraprocessados pode estar associado a um risco mais elevado de desenvolver diferentes tipos de câncer. Por isso, repensar hábitos pode ser um componente importante na prevenção dessa doença.
Qual a origem do termo alimento ultraprocessado e como identificar esse tipo de item no dia a dia?
De acordo com a segunda edição do Guia Alimentar da População Brasileira, alimentos ultraprocessados são aqueles formulados a partir de substâncias extraídas de outros alimentos (como amidos, gorduras e proteínas) ou com base em componentes sintéticos.
Esse tipo de alimento inclui uma série de ingredientes com nomes complicados e processos que não estão disponíveis em uma cozinha doméstica. Entre os exemplos mais comuns de alimentos ultraprocessados muito consumidos no dia a dia estão:
- biscoitos recheados;
- sucos industrializados;
- refrigerantes;
- sopas e macarrões instantâneos;
- salgadinhos de pacote;
- cereais açucarados;
- pães de forma;
- embutidos (como nuggets e salsichas).
Em geral, esses alimentos contam com características de cor, sabor e textura que os tornam extremamente atraentes (o que os especialistas chamam de hiperpalatabilidade). Isso explica, em parte, a dificuldade que quase todo mundo tem de começar um pacote de bolacha ou salgadinho e não parar de comer até que ele acabe.
Tal forma de identificar os alimentos é relativamente recente e recebe o nome de classificação NOVA. Além dos ultraprocessados, existem as categorias:
- alimentos in natura;
- minimamente processados;
- processados;
- itens utilizados para cozinhar (sal, açúcar, gordura e óleos).
A divisão é feita a partir da quantidade de processos que o alimento passa antes de chegar à mesa. Assim, o arroz e o feijão são itens minimamente processados, enquanto o refrigerante é classificado como ultraprocessado.
Desenvolvida por pesquisadores brasileiros do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo, essa abordagem substitui a concepção que considera apenas os nutrientes do alimento (carboidratos, proteínas etc.).
Qual a relação entre alimentos ultraprocessados e câncer?
Um estudo publicado no periódico médico eClinicalMedicine utilizou justamente a classificação NOVA como referência e buscou entender de que forma alimentos ultraprocessados poderiam predispor a uma chance maior de desenvolver câncer.
Para isso, foram aplicados questionários online em quase 200 mil adultos. Eles tinham entre 40 e 69 anos e moravam na Inglaterra, no País de Gales e na Escócia. Nos formulários, os pesquisadores questionavam, além de dados socioeconômicos, psicológicos e antropométricos, os hábitos alimentares.
O resultado foi expresso por meio da porcentagem que os alimentos ultraprocessados representavam na alimentação total ao longo de um dia. A média de consumo desse tipo de alimento alcançou 22,9% da ingestão diária de comida.
Os questionários foram aplicados entre 2009 e 2012. Em seguida, os voluntários foram acompanhados até 2021. Nesse período, os pesquisadores mapearam a incidência de câncer entre os voluntários. Ao todo, foram diagnosticados 15.921 casos da doença.
Levando em conta ajustes por idade e sexo, foi identificada uma maior incidência entre aqueles com maior consumo de alimentos ultraprocessados.
No quartil dos participantes com maior consumo dessa categoria de alimentos, o risco de desenvolver qualquer tipo de tumor foi 7% maior se comparado ao grupo que menos consumia. Para tumores de pulmão e cérebro, o risco cresceu 25% e 52%, respectivamente.
Outros achados apontaram para uma maior mortalidade devido a determinados tipos de câncer entre os voluntários que mais consumiam alimentos ultraprocessados. Isso inclui todos os tipos de câncer, mas com maior diferença em tumores no pulmão, nas mamas e nos ovários.
Além disso, o risco crescia à medida que o consumo de alimentos ultraprocessados também aumentava. Como exemplo, os autores mencionam que um aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados eleva a mortalidade por câncer de mama em 16%.
Leia também: Tabagismo, consumo de álcool, excesso de peso e outros mitos sobre o câncer que ainda persistem
Qual é a relação de alimentos ultraprocessados e câncer de mama?
Quando se fala exclusivamente do risco de tumores nas mamas por conta de dietas ricas em ultraprocessados, vale a pena destacar uma publicação de dezembro de 2025 do periódico Scientific Reports.
O estudo analisou dados de 50.855 mulheres, com idade entre 55 e 74 anos, por aproximadamente 8,8 anos. Nesse período, foram identificados 2.245 casos de câncer de mama e 270 mortes pela doença.
Após os ajustes, um dos modelos de análise apontou que o grupo de mulheres que mais consumia ultraprocessados tinha chance ligeiramente maior de desenvolver câncer de mama em comparação ao grupo de menor consumo. Para a mortalidade, houve uma tendência de aumento identificada, mas o resultado não foi estatisticamente conclusivo.
Como o estudo é observacional, os dados indicam uma associação, mas não comprovam que os ultraprocessados causem diretamente a doença, o que reforça o alerta de que o tema precisa ser melhor analisado. Adicionalmente, a associação foi mais evidente entre mulheres com mais de 65 anos com hábito regular de consumo de álcool ou com histórico familiar de câncer de mama.
Outro estudo publicado no eClinicalMedicine, de janeiro de 2026, mostrou como os ultraprocessados também podem afetar quem já recebeu o diagnóstico da doença.
O trabalho acompanhou 1.733 mulheres negras diagnosticadas com câncer de mama em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Após um acompanhamento médio de 9,3 anos, ocorreram 394 mortes, sendo 206 relacionadas ao câncer de mama.
As mulheres que consumiam em média 8,1 porções de ultraprocessados por dia tiveram risco 40% maior de morrer por câncer de mama do que aquelas que consumiam 2,6 porções. Nesse mesmo grupo, o risco de morte por qualquer causa foi 36% maior.
Qual a importância de reduzir o consumo desses produtos?
Na prática, tudo isso complementa outras evidências que associam o consumo de certos alimentos com a chance de desenvolver um câncer. Em 2015, por exemplo, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia apontado as carnes processadas como carcinogênicas.
Além disso, outro artigo científico aponta que a substituição de 10% da quantia diária de alimentos ultraprocessados por alimentos in natura ou minimamente processados reduz o risco de desenvolver um tumor em diferentes partes do corpo.
No mais, é sempre importante considerar que a quantidade excessiva de sal, açúcar e gorduras nos alimentos ultraprocessados pode predispor a um maior risco de outras doenças crônicas, como diabetes, problemas cardiovasculares e obesidade.
Como adotar escolhas mais conscientes na alimentação no dia a dia?
Ainda que na correria do cotidiano seja complicado pensar em cada elemento do cardápio com todo o cuidado necessário, algumas dicas práticas ajudam a reduzir o consumo de ultraprocessados:
- desconfie de listas de ingredientes longas, com nomes difíceis de pronunciar ou muitos aditivos químicos;
- priorize a cozinha de casa, pois preparar as próprias refeições permite controlar a quantidade de sal, açúcar e gordura;
- planeje as compras antes de ir ao mercado, o que evita compras por impulso de itens industrializados;
- prefira frutas in natura em vez de sucos industrializados;
- beba água como principal fonte de hidratação, reduzindo refrigerantes e bebidas açucaradas;
- congele porções de comida caseira para ter alternativas rápidas em dias corridos, evitando recorrer a macarrão instantâneo ou pratos prontos;
- aumente o consumo de vegetais e leguminosas nas refeições principais;
- desconfie de embalagens “saudáveis”, uma vez que termos como “light”, “fit” ou “natural” nem sempre significam que o item não é um ultraprocessado;
- envolva a família no preparo das refeições, tornando a alimentação saudável um hábito compartilhado;
- reduza gradualmente, já que pequenas substituições diárias são mais sustentáveis do que mudanças radicais e temporárias.
Em resumo, embora a relação entre alimentos ultraprocessados e câncer ainda necessite de mais investigações amplas, o consumo excessivo é considerado um fator de risco modificável. Portanto, a redução ajuda a proteger a saúde.
Vale ressaltar que o açúcar é um dos principais ingredientes presentes em abundância em alimentos ultraprocessados. Por isso, aproveite e confira a relação entre bebidas e alimentos açucarados e o risco de desenvolver um câncer de mama.






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