Um diagnóstico de câncer raramente deixa espaço para outras preocupações no primeiro momento. O foco recai, quase que instintivamente, sobre terapias, exames e as próximas etapas no combate à doença. No entanto, para pessoas em idade reprodutiva, há também a dúvida sobre o que acontece com a fertilidade no tratamento do câncer.
Diante dessa questão, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ou ASCO, na sigla em inglês) publicou, em 2025, uma atualização importante de suas diretrizes sobre preservação da fertilidade nos quadros oncológicos. O documento traz recomendações práticas e reforça algo que muitos pacientes ainda desconhecem: existem medidas eficazes para preservar a capacidade reprodutiva.
Por que discutir a fertilidade é importante antes, durante e depois de um tratamento oncológico?
Segundo a própria diretriz da ASCO, muitos pacientes não recebem informação adequada sobre os riscos à fertilidade e nem encaminhamento oportuno a especialistas em reprodução antes de iniciarem tratamentos como quimioterapia ou radioterapia.
Isso é um problema, pois certas modalidades de tratamento podem comprometer de forma temporária ou permanente a função reprodutiva. A janela de oportunidade para preservar a fertilidade, em muitos casos, existe antes do início do tratamento. Uma vez iniciado, algumas dessas estratégias se tornam inviáveis ou menos eficazes.
Mas a discussão não se encerra no diagnóstico. A nova diretriz da ASCO destaca um ponto que versões anteriores negligenciaram: os profissionais também precisam abordar a preservação da fertilidade no cuidado pós-tratamento, durante os anos de acompanhamento.
Outro aspecto relevante é o impacto emocional. Discutir as opções de preservação da fertilidade reduz a angústia e o arrependimento nas decisões tomadas durante o tratamento, independentemente de o paciente optar ou não por qualquer procedimento.
Tudo isso se torna mais relevante no cenário em que o número de casos de câncer vem aumentando entre pessoas mais jovens que ainda querem ter filhos. É o que acontece, por exemplo, com o câncer de mama.
Além de ser o mais comum entre as mulheres brasileiras (com exceção do câncer de pele não melanoma), com mais de 73 mil casos por ano, também atinge pacientes cada vez mais jovens. De acordo com o Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, uma em cada três pacientes tem menos de 50 anos atualmente.
Quais os pontos da nova diretriz da ASCO que merecem mais destaque?
Elaborada a partir da versão anterior do documento, de 2018, a atualização de 2025 consolidou orientações baseadas em 166 estudos publicados entre 2013 e setembro de 2024. Entre os pontos que se destacam, vale mencionar que:
- a discussão e o encaminhamento para especialistas devem ser oferecidos a todos os pacientes jovens com câncer, independentemente do diagnóstico, da urgência do tratamento, da situação socioeconômica ou do perfil demográfico;
- a conversa deve acontecer o mais cedo possível, para que o tema seja abordado antes do início do tratamento, quando um maior número de opções está disponível (como congelamento de óvulos ou embriões ou a preservação de tecido ovariano);
- antes em caráter experimental, a maturação in vitro de óvulos foi incorporada às recomendações. Ela permite a retirada de células ainda imaturas dos ovários e a complementação do processo de maturação em laboratório, evitando a necessidade de estimulação ovariana prévia;
- para pacientes do sexo masculino, as recomendações foram ampliadas, incluindo agora a extração de espermatozoides do testículo como opção padrão;
- mesmo com o reconhecimento do impacto do tratamento na fertilidade, as barreiras financeiras foram destacadas. Muitas vezes, os pacientes não têm a assistência adequada à saúde para tratar esse aspecto.
Na prática, a abordagem em busca da preservação da fertilidade no tratamento do câncer não é tarefa de um único especialista. A orientação de um grupo multidisciplinar tende a ser mais eficiente nesse cenário. Além disso, o documento aponta que novas discussões sobre o tema devem ocorrer sempre que houver mudança no plano terapêutico.
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Quais aspectos do tema merecem a atenção de mastologistas e pacientes com câncer de mama?
No contexto do câncer de mama, a discussão sobre fertilidade ganha camadas adicionais de complexidade. A maioria dos tratamentos oncológicos para esse diagnóstico traz implicações diretas para a função reprodutiva de mulheres ainda em idade reprodutiva.
A quimioterapia frequentemente induz insuficiência ovariana precoce. O impacto depende da idade da paciente e dos esquemas utilizados, mas mulheres mais jovens tendem a recuperar a função ovariana com mais frequência. De qualquer forma, a atividade do ovário pode ficar prejudicada de modo definitivo, o que pode reduzir as chances de gestação futura.
Já a hormonioterapia, frequentemente indicada por longos períodos, implica adiar uma eventual gravidez por intervalo igualmente prolongado. Nesse cenário, o congelamento de óvulos ou embriões antes do início do tratamento pode ser uma alternativa concreta para quem deseja ter filhos no futuro.
Por fim, uma das estratégias que também ganhou relevância nos últimos anos é a supressão da atividade ovariana. Ela busca proteger o órgão do efeito tóxico dos quimioterápicos. Embora os dados ainda sejam objeto de discussão, essa abordagem já é utilizada em muitos centros especializados como complemento às técnicas de preservação.
Seja como for, a mensagem prática é que a discussão sobre a fertilidade no tratamento do câncer deve entrar na conversa desde a primeira consulta após o diagnóstico. Esse tema não deve ser adiado, inclusive quando se pensa na qualidade de vida antes, durante e depois do tratamento da doença.
Confira agora os resultados de um estudo que demonstra não haver relação entre tratamentos de fertilidade e risco de câncer de mama.





