A recuperação após cirurgia de câncer de mama frequentemente vem acompanhada de recomendações bastante cautelosas em relação aos exercícios físicos. Assim, depois de uma mastectomia ou da retirada de linfonodos da axila, é comum que as pacientes sejam orientadas a manter o braço do lado operado em repouso. No entanto, novas evidências apontam que pode ser interessante rever essa lógica.
Um estudo apresentado na Reunião Anual de 2026 da Sociedade Americana de Cirurgiões de Mama avaliou o papel que os exercícios de força podem desempenhar na recuperação de mulheres tratadas cirurgicamente por câncer de mama.
Por que a força muscular pode impactar a qualidade de vida após o câncer de mama?
A cirurgia desempenha um papel fundamental no tratamento de muitas pacientes diagnosticadas com câncer de mama em diferentes estágios. Contudo, boa parte delas continua apresentando efeitos colaterais mesmo depois do período esperado de recuperação.
De modo geral, dependendo do procedimento realizado e das demais terapias necessárias, podem ser notadas limitações nos movimentos do ombro e do braço e perda de condicionamento físico, com impactos até mesmo nas atividades do dia a dia.
Outro aspecto que merece atenção nesse contexto é o risco de linfedema, sobretudo quando a cirurgia envolve a retirada de linfonodos axilares ou quando a paciente recebe radioterapia. Em resumo, essa alteração ocorre devido ao comprometimento da drenagem linfática.
Ela pode provocar inchaço no braço, na mão ou na região do tórax, além de sensação de peso, desconforto, fraqueza e dificuldade de movimentação. Uma vez estabelecido, o linfedema pode se tornar uma condição crônica e interferir nas atividades cotidianas.
Ainda assim, o receio de desenvolver o problema não deve levar as pacientes a evitar os exercícios de força de forma absoluta. Algumas evidências já disponíveis, como um artigo publicado em junho de 2025 no JAMA Network Open, não apontam aumento do risco de linfedema associado a programas progressivos e supervisionados de treinamento de resistência.
Nesse contexto, preservar ou reconstruir massa e força muscular pode ajudar a devolver autonomia para as atividades do dia a dia. Além disso, o músculo desempenha funções metabólicas importantes, enquanto o fortalecimento pode contribuir para enfrentar consequências do tratamento, como a perda de condicionamento físico e a redução de massa óssea.
Saiba mais: Treinamentos de força amenizam linfedemas após de câncer de mama, indica estudo
Qual o papel da musculação na recuperação após cirurgia de câncer de mama?
Para dar continuidade à avaliação dessa questão, os pesquisadores do estudo destacado na introdução realizaram uma análise envolvendo 197 sobreviventes de câncer de mama. Desse total:
- 112 pacientes haviam passado por cirurgia conservadora da mama (em que é feita uma remoção parcial do tecido mamário);
- 85 foram submetidas a uma mastectomia (em que há remoção total do tecido da mama);
- 26 participantes haviam sido submetidas à dissecção dos linfonodos axilares;
- todas participaram de um programa supervisionado de treinamento de resistência durante 12 semanas, com exercícios realizados três vezes por semana.
A proposta utilizava aumento progressivo das cargas e movimentos que trabalham vários grupos musculares, como agachamentos, levantamentos, supinos com halteres e remadas. Antes e depois do programa, os pesquisadores avaliaram diferentes aspectos da condição física das participantes, incluindo composição corporal, força das mãos, equilíbrio, qualidade dos movimentos e quantidade de peso levantado.
Ao fim dos três meses, tanto as mulheres submetidas à mastectomia quanto aquelas tratadas com cirurgia conservadora apresentaram melhora significativa em parâmetros como percentual de massa muscular, percentual de gordura corporal, desempenho nos testes funcionais e carga levantada durante os exercícios.
Outro ponto relevante é que nem a mastectomia nem a dissecção axilar foram fatores capazes de determinar a evolução das participantes. Ou seja, mesmo as mulheres submetidas a procedimentos mais extensos conseguiram obter benefícios importantes com o treinamento.
Na prática, os achados contribuem para desfazer a ideia de que essas pacientes precisam permanecer indefinidamente afastadas do treinamento de força. Em vez disso, reforçam a possibilidade de que a musculação integre estratégias de recuperação, desde que isso seja feito no momento adequado e com acompanhamento profissional.
Como garantir a segurança durante os exercícios físicos nesse período?
Apesar dos resultados animadores, eles não devem ser interpretados como autorização para retomar exercícios intensos por conta própria logo depois da cirurgia. O programa avaliado pelos pesquisadores foi supervisionado e baseado em aumento progressivo das cargas.
Ao mesmo tempo, isso não significa que toda mulher precisa atingir cargas elevadas ou seguir o mesmo plano de exercícios. Além disso, alguns cuidados fazem diferença para reforçar a segurança e a eficácia da rotina de exercícios durante essa retomada. Entre eles, estão:
- aguardar a liberação médica antes de iniciar o treinamento de força, respeitando o tempo de cicatrização;
- buscar acompanhamento de profissional habilitado (como um fisioterapeuta ou um educador físico) com experiência em reabilitação oncológica;
- priorizar a progressão gradual de carga, evitando saltos bruscos de peso ou volume de treino;
- observar sinais de desconforto, inchaço ou dor persistente na região operada e comunicar à equipe médica;
Seja como for, a mensagem trazida pelo estudo é relevante: recuperar-se plenamente não significa necessariamente evitar esforços. Com a supervisão apropriada do começo ao fim, treinos de força podem estar presentes na recuperação após cirurgia de câncer de mama.
Aproveite e confira agora como os diferentes tipos de cirurgia para câncer de mama podem influenciar na qualidade de vida das pacientes





