Falar em predisposição genética ao câncer de mama costuma trazer à mente o BRCA1 e o BRCA2 (que, inclusive, já foi tema de outras publicações por aqui). No entanto, um estudo publicado no JAMA Internal Medicine em dezembro de 2025 mostra como o universo de genes de risco para câncer de mama é bem mais amplo.
E não é só isso: uma parcela relevante das mulheres que os carregam nunca seria identificada pelos critérios de testagem usados atualmente na prática clínica. Assim sendo, vale a pena entender melhor o que isso pode significar para pacientes e profissionais de saúde.
Qual a influência dos genes de risco para o câncer de mama?
Genes de risco para câncer de mama são pequenas porções de DNA que, quando sofrem determinadas alterações (chamadas variantes patogênicas), aumentam a chance de desenvolvimento de um tumor maligno.
Nem toda mulher que carrega uma alteração em um desses genes necessariamente vai desenvolver câncer. O que ocorre é um aumento percentual no risco ao longo da vida, comparado a pessoas que não possuem essas variantes.
Essa informação genética pode ser herdada dos pais, o que explica por que muitas mulheres examinam o histórico familiar. Porém, como mostra a pesquisa destacada na introdução, nem sempre há casos documentados na família.
Os genes avaliados no estudo têm diferentes graus de influência sobre o risco de desenvolver a doença. O painel incluiu nove deles: BRCA1, BRCA2, ATM, CHEK2, PALB2, CDH1, PTEN, STK11 e TP53. Eles podem ser classificados como sendo de alta, média ou baixa penetrância, conforme o risco adicional associado à sua presença.
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O que um estudo com mais de 20 mil mulheres mostrou sobre o tema?
O estudo foi conduzido como uma análise secundária do ensaio clínico WISDOM (sigla em inglês para “Mulheres Orientadas a Realizar Rastreamento com Base em Medidas de Risco”), que comparou o rastreamento mamográfico anual tradicional com uma estratégia de rastreamento personalizada baseada em risco.
Todas as participantes do braço personalizado tiveram acesso ao teste genético para os nove genes de suscetibilidade ao câncer de mama destacados acima, independentemente de preencherem os critérios clínicos tradicionalmente usados para a indicação. Isso permitiu coletar dados de 23.098 mulheres sem histórico prévio de câncer de mama. No fim:
- 714 (3,1%) apresentaram variantes patogênicas em genes de suscetibilidade à doença;
- 605 pacientes desse total não tinham qualquer ciência sobre a presença dessa variante patogênica capaz de aumentar o risco de câncer de mama (o equivalente a, mais ou menos, uma a cada 38 das mulheres avaliadas);
- aproximadamente 30% das mulheres com alterações identificadas não relataram histórico familiar de câncer de mama ou de ovário em parentes de primeiro ou segundo grau, nem ascendência judaica asquenaze.
Tais fatores, hoje, costumam ser pré-requisitos para que o teste genético seja oferecido dentro dos protocolos assistenciais. Isso significa que uma parte substancial das portadoras de variantes de risco dificilmente teria acesso ao teste seguindo apenas os critérios convencionais.
Do ponto de vista étnico e demográfico, variantes no CHEK2 foram mais comuns em mulheres brancas não hispânicas (levando em conta que o estudo foi feito, em grande parte, nos Estados Unidos). Enquanto isso, variantes no PALB2 apareceram com maior frequência entre mulheres negras não hispânicas.
Mulheres mais jovens, por sua vez, concentraram uma proporção maior de variantes de alta penetrância. Esse é um dado relevante, já que portadoras de mutações como BRCA1 costumam desenvolver a doença mais cedo.
Isso pode alterar a indicação dos testes genéticos capazes de mapear o risco de câncer de mama?
Saber-se portadora de uma variante de risco não é, por si só, motivo de pânico. Todavia, é uma informação com potencial real de impacto na prevenção. Por outro lado, o estudo reforça que confiar exclusivamente no histórico familiar como critério de triagem deixa lacunas.
Ampliar o acesso ao teste genético, mesmo entre mulheres sem fatores de risco aparentes, pode representar uma oportunidade de detecção precoce por meio de diferentes condutas que envolvem:
- a ampliação da vigilância com mamografias e outros exames de rastreamento precoce;
- a discussão sobre intervenções preventivas, quando adequadas, como medicações ou cirurgias redutoras de risco;
- uma maior autonomia na tomada de decisões sobre contracepção, gestação, terapias hormonais e até mesmo planejamento familiar.
O profissional realiza o teste genético a partir de uma amostra de sangue ou saliva. A análise laboratorial torna viável o mapeamento de alterações em diversos genes de risco para câncer de mama.
Seja como for, é recomendável que a realização do teste seja acompanhada por aconselhamento genético. O resultado pode ter impacto físico e emocional bastante significativo, além de repercussão direta para os familiares da paciente.
Em resumo, a presença de genes de risco para câncer de mama não determina o futuro, mas conhecer os próprios riscos é essencial para planejar o cuidado e fortalecer a prevenção, sempre com o apoio e orientação do seu mastologista de confiança.
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